quarta-feira, 29 de setembro de 2010
O Duplo - Um poema de Petersburgo [Двойник: Петербургская поэма]
1 comentários Postado por Lourenço Becco às 5:43 AMO Duplo - Um poema de Petersburgo [Двойник: Петербургская поэма]
Fora de si, irrompeu na sua própria casa o herói da nossa história; sem tirar o capote nem o chapéu, passou o corredor e, como que atingido por um raio, parou à ombreira da porta do seu quarto. Todos os pressentimentos do senhor Goliádkin se tinham concretizado plenamente. Tudo o que suspeitara e receara era agora realidade. Cortou-se-lhe a respiração, a cabeça começou a andar-lhe à roda. O desconhecido estava sentado diante dele, também de capote e chapéu, em cima da sua cama, com um ligeiro sorriso e franzindo um pouco os olhos, a acenar-lhe amigavelmente com a cabeça. O senhor Goliádkin quis gritar mas não conseguiu; quis protestar mas não teve forças. O cabelo pôs-se-lhe em pé, os joelhos dobraram-se de terror. De resto, tinha razões para tal. O senhor Goliádkin reconheceu categoricamente o seu amigo noturno. O seu amigo noturno mais não era do que ele próprio - o próprio senhor Goliádkin, outro senhor Goliádkin, mas absolutamente igual a ele - numa palavra, o que se chama um duplo dele, em todos os sentidos.
[Trecho de Um Duplo - Poema de Petersburgo, de Fiodor Mikhailóvich Dostoiévski]
[Tradução de Nina e Filipe Guerra]
[Foto Magritte, de Mike Outloud, baseada no quadro La reproduction interdite (1937), de René Magritte]
sábado, 25 de setembro de 2010
Crime e Castigo [Преступление и наказание]
Ao cair da tarde de um início de julho, calor extremo, um jovem deixou o cubículo que subalugava de inquilinos na travessa S., ganhou a rua e, ar meio indeciso, caminhou a passos lentos em direção à ponte K.
[Parágrafo inicial de Crime e Castigo, de Fiódor Mikhailovich Dostoiévski]
[Tradução de Paulo Bezerra]
[Foto Dostoevsky's hero, de Lafaette]
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domingo, 16 de maio de 2010
Memórias do Subsolo
Sou um homem doente...Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei, ao certo, do que estou sofrendo. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos o bastante para respeitar a medicina. (Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.) Não, se não quero me tratar, é apenas de raiva. Certamente não compreendeis isto. Ora, eu compreendo. Naturalmente não vos saberei explicar a quem exatamente farei mal, no presente caso, com a minha raiva; sei muito bem que não estarei a "pregar peças" nos médicos pelo fato de não me tratar com eles; sou o primeiro a reconhecer que, com tudo isto, só me prejudicarei a mim mesmo e a mais ninguém. Mas apesar de tudo, não me trato por uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que doa ainda mais.
[1o. parágrafo de Memórias do Subsolo, de F. M. Dostoiévski]
[Tradução de Boris Schnaiderman]
[Foto Charles Bukowski, de *gottfriedhelnwein]
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