segunda-feira, 25 de abril de 2011
2666
Uno de los empleados era un farmacéutico casi adolescente, extremadamente delgado y de grandes gafas, que por las noches, cuando la farmacia estaba de turno, siempre leía un libro. Una noche Amalfitano le preguntó, por decir algo mientras el joven buscaba en las estanterías, qué libros le gustaban y qué libro era aquel que en ese momento estaba leyendo. El farmacéutico le contestó, sin volverse, que le gustaban los libros del tipo de "La metamorfosis", "Bartleby", "Un corazón simple", "Un cuento de Navidad". Y luego le dijo que estaba leyendo "Desayuno en Tiffanys", de Capote. Dejando de lado que "Un corazón simple" y "Un cuento de Navidad" eran, como el nombre de este último indicaba, cuentos y no libros, resultaba revelador el gusto de este joven farmacéutico ilustrado, que tal vez en otra vida fue Trakl o que tal vez en ésta aún le estaba deparado escribir poemas tan desesperados como su lejano colega austriaco, que prefería claramente, sin discusión, la obra menor a la obra mayor. Escogía "La metamorfosis" en lugar de "El proceso", escogía "Bartleby" en lugar de "Moby Dick", escogía "Un corazón simple" en lugar de "Bouvard y Pécuchet", y "Un cuento de Navidad" en lugar de "Historia de dos ciudades" o de "El Club Pickwick". Qué triste paradoja, pensó Amalfitano. Ya ni los farmacéuticos ilustrados se atreven con las grandes obras, imperfectas, torrenciales, las que abren camino en lo desconocido. Escogen los ejercicios perfectos de los grandes maestros. O lo que es lo mismo: quieren ver a los grandes maestros en sesiones de esgrima de entrenamiento, pero no quieren saber nada de los combates de verdad, en donde los grandes maestros luchan contra aquello, ese aquello que nos atemoriza a todos, ese aquello que acoquina y encacha, y hay sangre y heridas mortales y fetidez.
[Trecho de 2666, de Roberto Bolaño]
[Foto Fight In The Snow, de Matt The Samurai]
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quarta-feira, 6 de outubro de 2010
A Metamorfose [Die Verwandlung]
Certa manhã, após um sono conturbado, Gregor Samsa acordou e viu-se em sua cama transformado num inseto monstruoso. Deitado de costas sobre a própria carapaça, ergueu a cabeça e enxergou seu ventre escurecido, acentuadamente curvo, com profundas saliências onduladas, sobre o qual a colcha deslizava, prestes a cair. Suas inumeráveis pernas, terrivelmente finas se comparadas ao volume do corpo, agitavam-se pateticamente diante de seus olhos.
[Parágrafo inicial de A metamorfose, de Fraz Kafka]
[Tradução de Lourival Holt Albuquerque]
[Foto Metamorphosis of Mr. Samsa, de ~ozgurdinler]
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sexta-feira, 1 de outubro de 2010
O jogo da amarelinha [Rayuela]
Encontraria a Maga? Tantas vezes, bastara-me chegar, vindo pela rue de Seine, ao arco que dá para o Quai de Conti, e mal a luz cinza e esverdeada que flutua sobre o rio deixava-me entrever as formas, já sua delgada silhueta se inscrevia no Pont des Arts, por vezes andando de um lado para o outro da ponte, outras vezes imóvel, debruçada sobre o parapeito de ferro, olhando a água. E, então, era muito natural atravessar a rua, subir as escadas da ponte, dar mais alguns passos e aproximar-me da Maga, que sorria sempre, sem surpresa, convencida, como eu também o estava, de que um encontro casual era o menos casual em nossas vidas e de que as pessoas que marcam encontros exatos são as mesmas que precisam de papel com linhas para escrever ou aquelas que começam a apertar pela parte de baixo o tubo de pasta dentifrícia.
[Parágrafo inicial (ou não) de O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar]
[Tradução de Fernando de Castro Ferro]
[Foto Pont des Arts, Paris, de Offering]
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quarta-feira, 29 de setembro de 2010
O Duplo - Um poema de Petersburgo [Двойник: Петербургская поэма]
1 comentários Postado por Lourenço Becco às 5:43 AMO Duplo - Um poema de Petersburgo [Двойник: Петербургская поэма]
Fora de si, irrompeu na sua própria casa o herói da nossa história; sem tirar o capote nem o chapéu, passou o corredor e, como que atingido por um raio, parou à ombreira da porta do seu quarto. Todos os pressentimentos do senhor Goliádkin se tinham concretizado plenamente. Tudo o que suspeitara e receara era agora realidade. Cortou-se-lhe a respiração, a cabeça começou a andar-lhe à roda. O desconhecido estava sentado diante dele, também de capote e chapéu, em cima da sua cama, com um ligeiro sorriso e franzindo um pouco os olhos, a acenar-lhe amigavelmente com a cabeça. O senhor Goliádkin quis gritar mas não conseguiu; quis protestar mas não teve forças. O cabelo pôs-se-lhe em pé, os joelhos dobraram-se de terror. De resto, tinha razões para tal. O senhor Goliádkin reconheceu categoricamente o seu amigo noturno. O seu amigo noturno mais não era do que ele próprio - o próprio senhor Goliádkin, outro senhor Goliádkin, mas absolutamente igual a ele - numa palavra, o que se chama um duplo dele, em todos os sentidos.
[Trecho de Um Duplo - Poema de Petersburgo, de Fiodor Mikhailóvich Dostoiévski]
[Tradução de Nina e Filipe Guerra]
[Foto Magritte, de Mike Outloud, baseada no quadro La reproduction interdite (1937), de René Magritte]
sábado, 25 de setembro de 2010
Crime e Castigo [Преступление и наказание]
Ao cair da tarde de um início de julho, calor extremo, um jovem deixou o cubículo que subalugava de inquilinos na travessa S., ganhou a rua e, ar meio indeciso, caminhou a passos lentos em direção à ponte K.
[Parágrafo inicial de Crime e Castigo, de Fiódor Mikhailovich Dostoiévski]
[Tradução de Paulo Bezerra]
[Foto Dostoevsky's hero, de Lafaette]
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terça-feira, 14 de setembro de 2010
Grande Sertão: Veredas I
Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem - ou é o homem arruinado ou o homem dos avessos.
[Trecho de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa]
[Foto Human Face, de Anderton]
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quarta-feira, 4 de agosto de 2010
O amante de Lady Chatterley [Lady Chatterley's Lover]
0 comentários Postado por Lourenço Becco às 8:57 AMO amante de Lady Chatterley
Nossa época é essencialmente trágica; assim sendo, recusamo-nos a vivê-la como tal. O cataclismo aconteceu, estamos entre as ruínas, começamos a construir pequenos novos espaços, a ter novas esperanças. É um trabalho bastante árduo: agora não há caminho fácil para o futuro; mas ou contornamos ou vencemos com esforço os obstáculos. Temos de viver, não importa quantas vezes os céus tenham desmoronado.
[Parágrafo inicial de O amante de Lady Chatterley, de David Herbert Lawrence]
[Tradução de Glória Regina Loreto Sampaio]
[Foto Collapse, de Kannagara]
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Anna Kariênina
Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua própria maneira.
[1a. frase de Anna Kariênina, de Liev Tolstói]
[Tradução de Rubens Figueiredo]
[Foto Family, de Bule]
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sexta-feira, 18 de junho de 2010
O Evangelho Segundo Jesus Cristo
O filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo.
[Trecho de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago]
[Foto Childbirth, de Bahus]
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sexta-feira, 11 de junho de 2010
O Retrato de Dorian Gray [The Picture of Dorian Gray]
1 comentários Postado por Lourenço Becco às 8:19 PMO Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde
Lorde Henry olhou o rapazola. Era mesmo muito bonito, os lábios escarlates bem torneados, os olhos azuis, claros, os cabelos dourados, encaracolados. Havia algo, naquele rosto, que fazia com que se acreditasse nele imediatamente. Ali estava toda a candura e também a pureza passional da juventude. Sentia-se que o jovem se mantivera inatingido pelo mundo. Não era à toa que Basil Hallward o adorava.
[Trecho de The Portrait of Dorian Gray, de Oscar Wilde]
[Tradução de José Eduardo Ribeiro Moretzsohn]
[Foto About a boy, de Indiae]
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domingo, 16 de maio de 2010
Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.
Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.
[1o. parágrafo de Lolita, de Vladimir Nabokov]
[Tradução de Jorio Dauster]
[Foto Alessya portrait 14 25, de Wood Eye]
Memórias do Subsolo
Sou um homem doente...Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei, ao certo, do que estou sofrendo. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos o bastante para respeitar a medicina. (Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.) Não, se não quero me tratar, é apenas de raiva. Certamente não compreendeis isto. Ora, eu compreendo. Naturalmente não vos saberei explicar a quem exatamente farei mal, no presente caso, com a minha raiva; sei muito bem que não estarei a "pregar peças" nos médicos pelo fato de não me tratar com eles; sou o primeiro a reconhecer que, com tudo isto, só me prejudicarei a mim mesmo e a mais ninguém. Mas apesar de tudo, não me trato por uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que doa ainda mais.
[1o. parágrafo de Memórias do Subsolo, de F. M. Dostoiévski]
[Tradução de Boris Schnaiderman]
[Foto Charles Bukowski, de *gottfriedhelnwein]
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terça-feira, 17 de novembro de 2009
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